28 de novembro de 2017

Liberdade

A liberdade de um povo é a soma das liberdades de cada uma de nós.
Uma das minhas frases preferidas:

  “Nem a V. Majestade lhe cabe querer que eu o sirva como vassalo, nem a mim convém obedecer como súbdito”.

Ciprião de Figueiredo e Vasconcelos, Corregedor dos Açores em 1580, em resposta a Filipe II:

25 de novembro de 2017

Coluna Liberal-Diário dos Açores-2017.11.24


As resistências europeias, depois da revolução Francesa, ao Novo Regime foram muitas. É até compreensível, à época, que as chamadas potencias absolutistas da Europa - Áustria, Prússia e até a Rússia- tenham oferecido resistência às ideias desse novo regime burguês. Em países como Portugal, Espanha ou a França saída da revolução de 1789, essa resistência torna-se menos compreensível. No entanto, sabemos, a origem da cisão da França em duas metades religiosas e a enorme resistência que Napoleão de Bonaparte impôs à igreja de Roma.

Ora, em sociedades impregnadas de catolicismos muitas vezes barrocos, as resistências a esse novo regime haveriam de ser ainda maiores e como tal mais visíveis.
No entanto, o rastilho estava acesso desde a tomada da Bastilha e a sucessão de acontecimentos políticos e sociais na decorrência das guerras Napoleónicas haveriam de potenciar esse Novo Regime. Mesmo assim, Portugal permanecia um Pais resistente.
No dealbar de XIX Portugal era um pais essencialmente do Antigo Regime. Governado por um príncipe com capacidades intelectuais de duvidosa estirpe e por uma rainha louca, era um reino essencialmente agrícola que comerciava, incipientemente, com os seus parceiros tradicionais essencialmente vinhos e cortiça. O bloqueio continental e as invasões francesas poriam por terra esse mesmo que reduzido comércio.

O quadro político europeu, e a deslocalização da Corte para o Brasil ludibriando assim Napoleão, as invasões Francesas o acordo de comércio com a Inglaterra e mais uma mão cheia de razões ajudam-nos a compreender o processo histórico de construção desse novo regime em Portugal no primeiro quartel de XIX.

Hoje, no entanto,  na era da comunicação digital, do conhecimento cientifico, do avião supersónico, das viagens espaciais, do web summit e da inteligência artificial, ao invés de nos tentarmos libertar das peias do Estado perdulário e endividado, “controleiro” e omnipresente, cavamos ainda mais o fosso entre as liberdades individuais e aquelas que cedemos a essa tal entidade absoluta que não olha a limites de ação.

Cada vez mais, as nossas liberdades individuais, vão diluindo-se quanto mais o Estado vai avançando nos limites da sua acão. O Estado de hoje constrói narrativas falaciosas sobre necessidades que não temos nas quais se entretém a destruir riqueza que o obriga depois a contrair empréstimos externos para satisfazer os seus compromissos. O endividamento externo do Estado compromete o bem-estar da nação a médio e longo prazo mas garante a uns poucos a manutenção de pequenos poderes no imediato. Esses temem o Estado Democrático Liberal porque temem a liberdade dos seus iguais.

A resistência às ideias liberais de hoje não tem a ver com ameaças externas ou com guerras internas. A resistência ao estado liberal de hoje tem a ver com a manutenção do poder entre uns poucos e entre sempre os mesmos, sejam de que fações forem.

Já por várias vezes aqui me debrucei sobre o grande fosso entre ricos e pobres, entre os poucos que têm muito e os muitos que têm pouco. Esse fosso está cada vez maior, ou seja cada vez são menos os que mais têm e mais os que menos têm. Alguns dos que deviam defender o Estado Liberal, culpam-no desse fosso. Fazem-no gratuitamente, cegamente, por convicção doutrinária quase como se de uma religião se tratasse, sem tentarem perceber as suas causas passadas e presentes e os seus reflexos num futuro muito próximo.

Ao invés do que dizem as esquerdas habilidosas, os Estados liberais e  neoliberais não produzem pobres. Bem pelo contrário. São os estados excessivamente reguladores e excessivamente regulamentadores que condicionam as funções económicas e as restringem a alguns grupos os que mais contribuem para essa assimetria na concentração da  riqueza.

Como já aqui escrevi num passado recente, o acesso aos meios de financiamento da economia, nos dias de hoje, fazem-se, por decreto,  apenas por parte de quem já tenha um histórico e uma boa parte do capital a investir. Ironia das ironias, o restante capital que vem do Estado é fruto do trabalho e dos impostos daqueles que não terão jamais acesso quer ao investimento quer ao bens e serviços que alguns desses investimentos proporcionam ou disponibilizam.

Desde a revolução de 1820 que a resistência às ideias liberais é uma constante. Não se compreende bem o “argumentário” assim como  muito menos se entende a origem dessa resistência por vir das forças politicas e sociais que melhor e mais deveriam acolher essas ideias. Hoje ser liberal está conotado com ser de direita, ser neoliberal é quase um sacrilégio.

11 de novembro de 2017

Coluna Liberal-Diário dos Açores-2017.11.10


1.    Uma nota particular: Em época de discussão dos orçamentos regional e do Estado, é agora que mais se impõe responder à ameaça deixada pela rota do Ophelia. Ao facto de 6 dos 10 verões portugueses mais quentes desde 1931 serem deste século (IPMA). Em cuja segunda metade o aquecimento global médio poderá colocar o pesqueiro de Ponta Delgada onde agora é a avenida marginal (Climate Central)…
No próximo mês faz dois anos que, na minha série de crónicas sobre ciência, tecnologia e sociedade que o Correio dos Açores tem facultado aos três leitores delas, publiquei “Os dois porquinhos mais novos e a COP21”. Como não corro o risco de alguém se lembrar dessa crónica (até o Ophelia subitamente rumar a norte creio que também nunca mais me tinha lembrado dela), regresso aqui ao porquinho mais velho da fábula e a uma sua leitura dos sucessivos relatórios do IPCC, e do artigo do Financial Times (30/11/2015) de introdução à Conferência do Clima de Paris.
Esse jornal inglês, que não costuma ser propriamente acusado de ambientalismos cegos a quaisquer interesses económicos, traçava duas linhas que vêm convergindo num desastre anunciado: de um lado, o reconhecimento pela esmagadora maioria dos climatologistas da aceleração de alterações climáticas adversas, com responsabilidade humana. Do outro lado, o relativo fracasso das COP de Kyoto e de Copenhaga não prenunciava nada de bom sobre a probabilidade de um acordo eficaz (e à época, além dos Simpsons, ninguém adivinhava ainda que Donald Trump pudesse ser o próximo presidente dos EUA).
Nos Açores – se os climatologistas do Intergovernmental Panel on Climate Changes da ONU falharem apenas tantas vezes quanto, por exemplo, os seus colegas da Organização Mundial de Saúde relativamente aos benefícios das vacinas, etc. – os anos vindouros deverão pois ser em média mais secos e quentes, com mais tempestades e mais violentas.
Perante a possibilidade de num próximo outubro, antes de ir matar pessoas na Irlanda, algum furacão passar 180km. a oeste do trajeto do Ophelia, pergunto-me então se os nossos deputados na Horta estarão sendo porquinho mais velho, ou porquinhos mais novos, na dotação orçamental para reforço de estruturas públicas, da segurança civil… Para o abastecimento de água às explorações agrícolas em verões secos…
2.    Uma nota geral: Em época de discussão do orçamento do Estado, passei os olhos (apesar de aqui tentar resistir, um certo fastio político não me deixou mais que isso) sobre o parágrafo “Estratégia orçamental”, em contabilidade nacional, da Análise da UTAO ao OE2018.
E comecei por me sentir logo menos mal, pois, porquinho mais novo dos três, serão apenas os eleitores do BE. E os do PCP. E os do PS que ainda não perceberam que menos e piores serviços públicos, pelas cativações orçamentais, são apenas uma certa outra forma de fazer austeridade – aquela que mais fere quem, com um aumento médio real de 0,6% dos salários (2016), continua a não ter dinheiro para comprar serviços privados.
A mim não parece justo, mas do mal o menos. Pois os representantes dos primeiros e dos segundos eleitores acima referidos, enquanto com uma mão os excitavam antes com promessas de saída do euro, de renegociação unilateral da dívida… com a outra, agora, continuam a sustentar o respeito pelo Pacto de Estabilidade e Crescimento traçado por quem, através do BCE, nos aguenta os juros. Que isso de jangadas de pedra à deriva rumo à Venezuela são boas mas em romances, fora destes queremos continuar a comer três vezes ao dia. Já os representantes dos eleitores socialistas são simples e transparentes: depois da semana a seguir às últimas legislativas, sabemos que farão apenas tudo o que for preciso para se aguentarem no poleiro. Menos mal.
E só não digo “Até bonzinho” porque, entre o desmiolado porquinho mais novo e o prudente mais velho, há o bem intencionado mas insuficiente porquinho do meio. Aquele que se põe a caminho, mas nunca chega lá. Exatamente o que se teme na Análise da UTAO: “as medidas de política orçamental apresentadas no relatório da Proposta do OE/2018 (…) podem vir a ser consideradas insuficientes” (p. 23)…

Mas esperemos que esses técnicos estejam enganados. E que os nossos governantes e seus apoiantes do BE e PCP, embora sem o mérito de terem contribuído para a grande variação positiva de 5,8% da evolução do PIB entre 2012 e 2015, desde o crescimento negativo de –4% ao crescimento de +1,8%, não dificultem a variaçãozinha de 0,7%, ou de 0,4%, entre 1,5% em 2016 e 2,2% ou 1.9% previstos para 2018 (gráfico 1).

Miguel Soares de Albergaria, Diário dos Açores edição de 10 de Novembro de 2017

10 de novembro de 2017

No centenário da Revolução Russa.

Contemporâneo da revolução vermelha, “O Sol dos Mortos” é um testemunho directo de quem viveu a agonia da tirania bolchevique. Quando se assinalam 100 anos sobre a revolução de Outubro, evocar o livro de Ivan Chmeliov é recordar mais um capítulo do livro negro do comunismo. Ao contrário dos “10 dias que abalaram o mundo”, no qual John Reed santificou a acção comunista, “O Sol dos Mortos” permaneceu obscuro. Nunca importou à cultura e aos média dominados pela esquerda. Sintomática dessa censura do “gauchismo” é o facto de, em Portugal, só ter sido traduzido e editado em 2015. O livro, dolorosíssimo de ler pela mensagem de perda e desesperança, relata a guerra civil russa, alimentada pelo comunismo bolchevique, depois de o Czar ter abdicado e de o partido de Lenine ter sido rechaçado nas primeiras eleições para a Duma. A revolução russa e as suas mimeses deixaram a memória de “milhões de desaparecidos debaixo da terra com as bocas famintas”. O holocausto vermelho não tem rival na contabilidade de óbitos e misérias. Em 1989, com a queda do muro de Berlim, a estrela vermelha colapsou e no seu lugar ficou o imenso buraco negro do maior crime contra a humanidade. A data da revolução homicida é uma efeméride que convém lembrar, mas nunca celebrar.

João Nuno Almeida e Sousa, hoje no Açoriano Oriental

28 de outubro de 2017

Coluna Liberal-Diário dos Açores-2017.10.27



Quando o Estado passa de mínimo a máximo falha e quando isso acontece ele, Estado, falha no mínimo e no máximo. Por isso, é corriqueiro ouvir-se a frase, lugar-comum, de que quanto mais Estado pior Estado. Na verdade, para as nações como para os indivíduos, quanto mais é diversificada a sua área de atuação menor é o seu grau de especialização e menos é a sua capacidade de intervir com rigor numa determinada área. Se nos casos dos indivíduos essas práticas lhe dão ferramentas de adaptação a diferentes circunstâncias já para as Nações/Estado as coisas são bem diferentes.
Voltemos à doutrina da construção do estado e aos contratualistas. O Homem é, por natureza, imperfeito, cruel, mau e não raras vezes cobarde. Dai a necessidade desta entidade a que hoje chamamos estado e do contrato social, ou seja da relação contratual entre o individuo, livre, em estado natureza e o estado.
Hobbes quando nos fala da necessidade de ceder-mos alguns dos nossos apetites, interesses individuais, ao estado explica:
A única forma de constituir um poder comum, capaz de defender a comunidade das invasões dos estrangeiros e das injúrias dos próprios comuneiros, garantindo-lhes assim uma segurança suficiente para que, mediante seu próprio trabalho e graças aos frutos da terra, possam alimentar-se e viver satisfeitos, é conferir toda a força e poder a um homem, ou a uma assembleia de homens, que possa reduzir as suas diversas vontades, por pluralidade de votos, a uma só vontade”.
No entanto, essa vontade única tem limites essencialmente assentes na proteção dos homens dos apetites de outros homens. Nunca podemos deixar de vista que Hobbes  entende o Homem como Lobo do Homem. Por isso,"a obrigação dos súditos para com o soberano dura enquanto e apenas enquanto dura também o poder mediante o qual ele é capaz de protegê-los
 Esse ser gigante a que Hobbes deu o nome de Leviatã, que engloba todos os poderes e a quem cedemos algumas das nossas liberdades individuais é aquilo a que se chama hoje o Estado, uma entidade abstrata construída por Homens para Homens e para sua proteção.
Chegou então a altura de, de forma séria e tendo por base a filosofia politica e essencialmente a construção do Estado Moderno, refletirmos  sobre as tragédias que ocorreram no pais nos últimos meses e onde falhamos.
Desde logo falhamos porque cedemos ao Estado algumas das nossas liberdades individuais para que o estado nos proteja mas logo passamos a exigir do estado coisas para as quais ele não está vocacionado. Fizemo-lo por demissão dos mais básicos deveres de cidadania, fizemo-lo por comodismo e por egoísmo. Mas, sobretudo, fizemo-lo porque escolhemos para constituir o Estado não os melhores dos Homens, nem os mais capazes mas sim aqueles que nos dizem aquilo que queremos ouvir através da sua eloquência oratória e da sua persuasão.
O Estado Contemporâneo, versão mais atual do Estado Moderno, no caso Português, deixou de investir os seus recursos na proteção dos cidadãos e dos seus bens e propriedades, para ocupar espaços onde não deveria estar. O estado é banqueiro, comerciante, industrial e até pai de família mas deixou ao abandono o comum dos cidadãos.
Abandonou milhares de pequenos povoados no interior do país de onde retirou as esquadras da Guarda deixando as populações envelhecidas à mercê de hordas de criminosos romenos e a quem lhe aponta o dedo chama de xenófobo.
Fechou centenas de escolas obrigando as famílias a deslocalizarem-se para centros urbanos maiores promovendo, assim, o abandono do meio rural.
Encerrou centros de saúde de proximidade patrocinando a deslocalização de doentes e respetivas famílias para centros urbanos maiores e deixando ao abandono milhares de pequenas aldeias e povoações.
Desinvestiu e desmantelou a Corpo da Guarda Florestal que era um dos pilares da prevenção dos fogos florestais, acabou com os cantoneiros, com os guarda-rios e com mais uma série de agentes do estado  que estavam junto das populações, faziam parte das comunidades e faziam parte do meio rural confundindo-se muitas vezes a profissão com as suas próprias vidas no bom sentido que isso pode ter.
Tudo isso foi feito nas barbas do cidadão pagante, do cidadão contribuinte que viu assim diminuída a sua segurança, a proteção devida à sua propriedade apesar de , cada vez mais, ser vitima da entrada do Estado na sua esfera privada.

Tudo isso foi feito em nome da economia de meios da sobrevivência das instituições e toda essa poupança foi investida (dizem eles) a salvar bancos  e o sistema bancário. Para isso houve sempre recursos, só não há recursos quando se trata do estado cumprir a sua verdadeira função, proteger os cidadãos e a sua propriedade.
Um estado que não o faz, é um Estado à beira do falhanço, e não digo que é um Estado falhado porque este é um conceito mais restrito e tecnicamente muito bem definido.




27 de outubro de 2017


Inquérito Diário dos Açores

1 - O Presidente da República visita nos próximos dias S. Miguel e Santa Maria. Quais os principais problemas que deveriam ser apresentados e debatidos com o Chefe de Estado?

Em cima da mesa estão dois assuntos de relevante interesse para a Autonomia um deles é a assunção de responsabilidades por parte do Estado Português relativamente à descontaminação de áreas contaminadas pelos Norte Americanos nas Ilhas Terceira e Santa Maria e a segunda é relativa à, recentemente, retomada polémica relativa à existência de Partidos Regionais. Se no primeiro caso basta vontade e recursos financeiros para ao Estado Português assumir as suas responsabilidades, já no segundo caso será necessário mais do que boa vontade, é necessária uma revisão da Constituição e, desde logo, saber se esse é, de facto, o interesse das populações das regiões autónomas portuguesas. Em qualquer um dos casos era conveniente ouvir Marcelo Rebelo de Sousa.

2 - Devem o Governo Regional e os restantes órgãos representativos da sociedade aproveitar a magistratura de influência do PR para pressionar o Estado português ou outras instituições internacionais quanto aos problemas dependentes destes?


O Presidente da Republica não é aquilo que se pode classificar como um presidente populista mas é aquilo que se pode considerar um Presidente popularucho. Ora essa popularidade interna dá-lhe alguma legitimidade e força para exercer o cargo com consequências. No entanto, no que concerne às instâncias internacionais essa mesma popularidade pode não ser suficiente. Neste momento, no plano Internacional, o desafio mais importante que temos para defender é a ocupação e a exploração dos nossos mares, nem é o propalado downsizing das Lajes ou a descontaminação da Ilha Terceira, é mesmo a questão da mineração dos fundos dos mares e a cota parte de responsabilidade decisória que deve caber aos Açorianos. Neste particular, parece-me que o Governo dos Açores está mais virado para comer as migalhas do que para ser o dono da padaria.

3 - Como avalia a atuação do PR no processo dos trágicos incêndios?

Marcelo Rebelo de Sousa tem feito um mandato coerente com o que prometeu aos Portugueses, uma presidência de proximidade e de afetos. Neste aspeto, nada há a apontar ao desempenho do atual Presidente da Republica. No entanto pode-se questionar se é essa a função do mais alto magistrado da Nação. De permeio, entre duas “selfies” e quatro abraços, Marcelo vai enviando recados ao governo e aos partidos da oposição sobre as questões mais relevantes. Os fogos do último verão e outono puseram a nu todas as fragilidades do sistema de alertas, de comunicações, de combate e essencialmente de prevenção. A ida ao terreno do Presidente da Republica foi um alento para algumas populações que se sentem abandonadas e o estão de facto desde que o estado resolveu demitir-se das suas principais funções, a proteção de pessoas e bens.



14 de outubro de 2017

Coluna Liberal


Uma nota – “Duas ‘democracias’ decorreram das Revoluções dos séc. XVII e XVIII: a ‘ditadura da maioria’ decorreu da Rev. Francesa. Das Rev. Gloriosa (Inglaterra, séc. XVII) e Rev. Americana (independência e Constituição dos EUA) decorreu a decisão da maioria, mas no limite do respeito pelas minorias – inclusive a vontade da minoria não/pertencer ao conjunto (exceção da Secessão dos Estados do sul!).
Esta 2ª ‘democracia’ é a liberal. Que permite minorias jacobinas.
Já a ‘democracia’ jacobina tem destinado às minorias a guilhotina e a Sibéria.
Numa ‘democracia’ em que a maioria, que em parte vive à custa de uma minoria, impõe a esta última a pertença à primeira – como eventualmente agora entre Madrid e a Catalunha – restam aos liberais revoluções como as dos ingleses e americanos”.
Na ligeireza própria do Facebook, onde há três semanas publiquei o anterior textozinho, não sublinhei o “eventualmente”. Na menor ligeireza que atribuímos à leitura de jornais, já essa palavra deverá pesar outro tanto quanto as restantes todas juntas.
Pois no plano das ideias – desde as sistematicamente fundadas até às facebocas – contam apenas as definições e combinações entre elas. Mas, no plano prático da ação, pelo menos tão importantes quanto as ideias são os critérios, primeiro, de seleção das ideias relevantes para a situação em causa; depois, do ajuste delas a esta última; finalmente, de verificação dos resultados dessa aplicação.
Por exemplo: da Catalunha, Escócia… aos Açores, que evidências empíricas serão significativas de que maiorias estejam em parte a viver à custa destas minorias? Que evidências empíricas serão significativas de que aquelas imponham a estas últimas a pertença às primeiras?…
Em suma, para mantermos os pés no chão e não embarcarmos em fantasias, julgo que devemos tomar eminentemente pela negativa princípios gerais como o da autodeterminação democrática, expressando a recusa de qualquer autocracia ou prepotência. Mas, para depois nos orientarmos positivamente no campo assim aberto de diversas ações concretas, decidindo entre estas, importam primeiramente já não as ideias, mas os critérios de aplicação destas outras a cada situação.
Outra nota – Assim, em vista a uma ponderação sobre o que seria uma independência dos Açores, perguntei (ainda no Facebook) a um independentista: “vocês já fizeram alguma estimativa (segundo os métodos da ciência (?) económica) de qual seria o produto potencial (PIB natural) açoriano entre a data da independência, e a data de uma eventual adesão à UE, considerando taxas aduaneiras sobre os nossos produtos lácteos, a diminuição de impostos locais numa retração económica, o fim das transferências financeiras portuguesas e europeias…?
A economia não é o único fator relevante, e julgo que nem é o mais importante. Mas se tiveres alguma pista sobre isso gostaria que a partilhasses.”
O meu amigo considerou-a “uma questão importantíssima”. Mas não menos importantíssimo, insisto agora, é que seja respondida mediante os métodos da “ciência (?) económica”.
Por epistemologicamente débeis que sejam esses métodos, quando comparados com os da física ou da química, são os menos maus que temos. Deus nos guarde de quem porventura se queira mesmo orientar por facebocas como “Uma coisa é serta se os Açores dessem prejuízos a Portugal de serteza que ja nao eramos Portugueses” (sic, e só no Facebook é que 1 erro em cada 4 palavras pode ser insignificante).
Atribuir à teoria um estatuto eminentemente negativo na racionalidade prática não significa abandonar o raciocínio tão rigoroso quanto possível.
E uma última nota – Daí a resposta que dei, quando aquele meu amigo escreveu: “Da minha parte tenho duas respostas possíveis. Uma é que não tenho capacidade de te responder a essa pergunta, outra é que não estamos nessa fase, sinceramente. A independência dos Açores não é o ponto de partida, mas sim o ponto de chegada. Ainda estamos no ponto de partida, na fase dos direitos humanos, na fase do direito a podermos nos organizar politicamente…”.
Eu: “A 2ª resposta torna a 1ª aceitável. Mas então a retórica na atual fase deve incidir sempre e apenas no direito à organização local… em vista a uma consulta popular. E não já a tese de que, em tal consulta, devamos votar pela independência”.
Ou como por esses dias eu tinha comentado nessa rede social a outro amigo, sobre o mesmo assunto: “2 questões são logicamente independentes quando qualquer das respostas possíveis a uma e a outra não condicionam a resposta à outra questão”.
Um liberal não prescinde dessas análises. Até porque o reconhecimento do juízo crítico, próprio da racionalidade, é talvez a primeira pedra onde – desde os séc. XVII e XVIII – assenta a valorização da liberdade individual.


Publicado no Jornal Diário dos Açores edição de 13 de Outubro de 2017

3 de outubro de 2017

Autárquicas 2017

Eu podia escrever “picos” de coisas sobre as autárquicas 2017. Podia escrever sobre, democracia, iliteracia, caciquismo, oportunismo e podia até escrever sobre resíduos urbanos, politiquice e politica a sério. Podia até arranjar com isso muitos amigos e muitos inimigos. Podia falar do PS que ganhou perdendo, do PSD de perdeu ganhado, do CDS que vai definhando, do PAN do PCP do Bloco e dos votos pré-preenchido e fotocopiados. No entanto, não me apetece nada disso e nada dessas coisas menos importantes da política. Para mim houve quatro claros vencedores nestas autárquicas a saber:

1-      O Povo. Este é sempre o principal vencedor num dia de exercício da democracia. Votaram menos pessoas do que há 4 anos, a abstenção cresceu, pouco mas cresceu, mas mesmo assim esta é a festa da democracia a festa do Povo;


2-      Cristina Calisto. Indubitavelmente uma vencedora em toda a linha e demonstrou que vale por si só, Bem haja.



3-      Miguel Adolfo (António Miguel Borges Soares), não é fácil ganhar as eleições a um autarca no poder, mais difícil é ainda quando esse autarca apenas está no poder há um mandato e dificílimo é quando o executivo em funções é da mesma cor partidária do Governo Regional, bem hajas Miguel.



4-      Daniel Gonçalves, eleito Presidente da Junta de Freguesia de Santa Bárbara, Vila do Porto (o anterior Presidente fez um bom trabalho).  O meu amigo Daniel Gonçalves, poeta, ambientalista, homem de cultura e das culturas, pensador livre e que, comigo, nutre especial carinho pela gente da Ilha de Santa Maria tendo escolhido aqui viver. Eu escrevi um dia, já não sei quando nem onde, que a minha maior ambição era ser Poeta em Vila do Porto . Um dia serei, poeta em São Lourenço, Santa Bárbara, Vila do Porto. Bem hajas amigo e que desta vez não te desiludas como te desiludiste no passado.


30 de setembro de 2017

Coluna Liberal


Do Estado de Direito Democrático e das suas virtudes
-O senhor quer fatura com contribuinte?
Pergunta o empregado de balcão da loja ao cliente.
-Não! Responde o cliente. E prossegue: O Estado não tem que saber onde estive, o que ando a fazer e muito menos deve saber onde e quanto gasto do meu dinheiro.
Não há, nos dias que correm, melhor forma de afirmar e de garantir a liberdade individual do que se proteger do Estado, omnipotente e omnipresente que se foi construindo ao longo dos últimos 50 anos. Na verdade, os grandes males que a esquerda e a direita – mais a primeira do que a segunda - “controleiras“ infligiram sobre as sociedades modernas (o estado é de facto uma invenção moderna) foi a ideia de que o Estado não existe para servir os cidadãos mas sim o inverso. É verdade que não devemos centrar a nossa vida na polis perguntado o que pode a polis pode fazer por nós mas sim o que podemos nós fazer pela polis, ficou celebre e faz todo o sentido, a frase de Kennedy “não perguntes o que a Pátria pode fazer por ti pergunta antes o que tu podes fazer pela Pátria”. No entanto, não pode o cidadão andar permanentemente a ser perseguido pelos agentes do estado como se de um pervertido criminoso se tratasse nem pode o cidadão ser escravo das voracidades do Estado e dos seus agentes.
Ora o que melhor podemos fazer pela Pátria/Nação/Estado é participar da sua gestão das suas decisões, das suas contradições e das suas certezas. A participação politica, seja ela a que nível for, é a nossa melhor forma de afirmar a nossa liberdade e de garantir as melhores decisões, mesmo que essa participação cívica não vá além do ato de votar
O Estado de Direito Democrático é um produto do liberalismo. Para os liberais – onde nos incluímos- só os Estado de direito é capaz de garantir as liberdades individuais, a proteção de uns em relação aos outros ( o homo homini lupus de que nos fala Hobbes) e a propriedade privada.
Para que tal seja possível, as regras do estado devem ser claras, abrangentes e aplicáveis a todos os cidadãos sem diferenciação sem descriminações positivas ou negativas, simples e de compreensão facilitada.
Nas sociedades contemporâneas que melhor conhecemos e onde nos relacionamos, nomeadamente nos países da União Europeia, infelizmente, esses princípios do Estado de Direito Democrático e Liberal têm sofrido uma enorme erosão que nos tem trazido a conflitos e cisões sociais cada vez mais difíceis de combater e dirimir. No entanto, há ainda muitos grupos políticos que insistem em repetir à saciedade que as sociedades contemporâneas carecem de mais regulação e regulamentação, de mais descriminações positivas, de mais cisões.
Em nome de questões como a segurança interna, a luta contra o terrorismo, a defesa das minorias ou a simples proteção do “bicho papão” que é o capitalismo os mais básicos princípios e preceitos do Estado de Direito Democrático estão a sofrer, desde há algum tempo, na França, na Alemanha e em outros países da União, um desgaste enorme, descurando assim, a proteção da informação individual e a proteção dos direitos e liberdades individuais.
A construção de um edifício legislativo por reação a um problema ou a uma questão social, diz-nos a história, não traz vantagens, bem pelo contrário. Quando o Estado legisla por necessidade (status necessitatis) essa legislação tende a ser fundamentada em juízos subjetivos já que o próprio conceito de necessidade, neste caso, é todo ele subjetivo face àquilo que se pretende seja alcançado.
Em 2016 o Conselho da Europa, na decorrência da declaração do Estado de Emergência em França em finais de 2015 (13 de novembro), alertou para os perigos que mecanismos políticos e judiciais como são a declaração do Estado de Emergência ou o Estado de Exceção, constituem para própria democracia por confundirem, não raras vezes, o facto e a necessidade de o prevenir com o próprio direto ou seja com a necessidade da norma para cumprir ou revogar as lacunas de outra norma. Os totalitarismos aplaudem.
Nunca é de mais lembrar nem sequer exagerado recordar que foi o Estado de Exceção, Estado de Emergência ou Estado de Necessidade ( cada um escolha  terminologia que melhor lhe soar) que permitiu a construção dos mais vis totalitarismos que a Europa viveu em todo o século XX, na Alemanha, em Itália, em Espanha e até, se quisermos, em Portugal.


Nuno Barata Almeida e Sousa

Jornal Diário dos Açores edição de 29 de Setembro de 2017

16 de setembro de 2017

Nem só Relvas nem só Esteves.




Os casos mediáticos da obtenção do grau de licenciado por Miguel Relvas e por Rui Esteves trazem à colação, pelo menos, duas questões em que a norma (n.º 1 do artigo 45.º-A do Decreto-Lei n.º 74/2006, de 24 de Março, alterado pelo Decreto-Lei n.º 115/2013, de 7 de Agosto) não deveria sobrepor-se à ética.

A primeira é, desde logo, o facto dessa gente, querendo ocupar lugares públicos e ser Dr. porque o país lida mal com quem não o é (isso dá outro artigo), se refugiar na norma para atingir um fim que apesar de legitimo, poder ser, se confunde com o dever ser. A ética ensina-nos que as nossas escolhas pessoais não podem ser fundadas na norma. Nem tudo o que pode ser feito deve ser feito e nem tudo o que deve ser feito pode ser feito.

A segunda, prende-se com a forma aligeirada como algumas direcções de cursos avaliam as competências dos candidatos, chegam a ultrapassar os dois terços do total de ECTS. Ter já ocupado lugares públicos e de eleição ou nomeação não confere competências para certas licenciaturas, muitas vezes bem pelo contrário.

A creditação assenta no Sistema Europeu de Transferência e Acumulação de Créditos (ECTS). Nos casos em apreço qualquer um dos dois indivíduos, não duvido nem um bocadinho, reuniam as condições mais do que suficientes para que, observada a lei, lhes fossem reconhecidas competências para efeito de obtenção desses mesmos ECTS (Bolonha deixa muito a desejar) pois que, na norma, para tal basta que tenham participado em Congressos; Colóquios; Conferências; Seminários; Cursos breves; Cursos de verão; Cursos de línguas e por ai a diante.


Milhares de cidadãos, por esta Europa fora, depois do processo de Bolonha, têm obtido o grau de licenciado recorrendo a este “expediente legal”. Mais uma vez reforço, a norma nem sempre justifica tudo, há coisas que podem ser feitas mas não devem ser feitas.

Coluna Liberal

Um louvor do comunitarismo

À porta de eleições autárquicas, é oportuno realçar o relevo que na tradição liberal se tem atribuído ao poder local, e questionarmo-nos pelo seu sentido – eventualmente bem exemplificado no concelho de Ponta Delgada por propostas de alguns atuais candidatos… tanto pela positiva quanto pela negativa.
O relevo desse nível político numa sociedade liberal foi reconhecido logo por Alexis de Tocqueville, na sua célebre viagem pelos Estados Unidos da América em 1831/2.
Esse país era então composto pela união de 24 nações soberanas, estando cada um destes Estados dividido em condados – administrativos e judiciais – e, primeiramente, em comunas (townships).
As quais eram formadas pelos habitantes de cada localidade, em vista à resolução das respetivas questões coletivas. No caso da Nova Inglaterra, nesse primeiro nível político não se aplicava a lei da representatividade, a democracia era exercida direta ou participativamente pelos cidadãos. Entre os quais alguns eram aleatoriamente designados para, durante um certo período, desempenharem as funções administrativas – talvez um pouco como a responsabilidade por um condomínio a rodar pelos vários inquilinos. Nomeadamente, a função de aplicar a repartição dos impostos, cujo montante era estabelecido a nível estadual, mas conforme ao que fosse determinado em reunião comunal aberta a todos.
Como Tocqueville salientou, a participação na comuna constituía a raiz de uma atividade política orientada, nessa nova república americana, da base para o topo. Em contraposição à orientação inversa que, nos reinos europeus, permanecia do Antigo Regime.
Um século e meio depois da publicação de Da Democracia na América, uma estimulante interpretação do sentido dessa organização política encontra-se na obra do filósofo canadiano Charles Taylor (n. 1931).
O qual se opõe à tradição iluminista – assumida eminentemente pelo liberalismo clássico – que concebe cada ser humano como capaz de, por si só, equacionar e decidir racionalmente as alternativas que enfrente. Para o que lhe bastaria a “liberdade negativa” (Isaiah Berlin) de não sofrer constrangimentos ou obrigações externas – ex. impostas pelos órgãos políticos.
Diferentemente, segundo Taylor, por um lado cada pessoa constrói-se em correlação com as pessoas com quem convive. Este comunitarismo não se confundirá porém – como o socialista ou o conservador – com qualquer dissolução do indivíduo no grupo. Significa antes que é num diálogo com os outros, tanto em acordo como em desacordo, que cada um se apercebe e assume os valores que o orientarão.
Por outro lado, cada pessoa é “positivamente livre” se tiver as capacidades – ex. autoconsciência, autocontrole, disponibilidade física… – de expressar e realizar os seus desejos por aquilo que, naquele diálogo, se lhe revela como bom. A alguém sem estas capacidades, se porventura for poupado a quaisquer constrangimentos e obrigações externas a única liberdade que terá é a de definhar e morrer.
Confesso que, do pouco que conheço os argumentos de Taylor, tenho dúvidas sobre o seu êxito na tentativa de conciliar um “realismo moral” – o bem de algumas ações não depende dos desejos, estes é que se subordinam àquele – e o profundo condicionamento sociocultural que o autor reconhece sobre cada indivíduo. Todavia deixarei esta questão em aberto, para aqui registar apenas que, por esta via teórica, a participação comunitária terá o duplo sentido de contribuir para a institucionalização de uma liberdade positiva, e de se constituir como um meio (diálogo) privilegiado do participante se construir eticamente.
Julgo que um exemplo positivo da participação comunitária assim interpretada, no concelho de Ponta Delgada, tem sido o orçamento participativo instituído pelo atual presidente da Câmara Municipal, José Manuel Bolieiro, candidato pelo PSD a renovar o cargo. Decisões de dezenas de milhar, dir-se-á, que quando se trata de dezenas de milhão o presidente dessa autarquia decide à porta fechada, como na AMISM sobre uma incineradora de resíduos sólidos para esta ilha… Mas já é melhor do que a anterior nulidade de qualquer participação direta dos cidadãos.
Cujo incremento é também positivamente exemplificado pelas propostas do candidato do partido Livre, José Manuel N. Azevedo. O qual, aliás, já se pronunciou a favor de alguma forma de democracia participativa ou deliberativa na decisão sobre aquela incineradora.
Em troca, dizem-me que o candidato do PS à Junta de Freguesia de S. Roque, Pedro Moura, está a repetir a sua receita de sucesso nas últimas autárquicas, oferecendo churrascos, viagens de navio até S. Maria… Não será por certo caso único. Mas todos estes fomentam a redução de capacidades íntimas para a liberdade positiva, como a consciência crítica, o autocontrole contra a indigência, etc., dos respetivos eleitores.

Exemplificando assim negativamente o sentido que Charles Taylor reconhece na participação comunitária, que desde Tocqueville é primeiramente valorizada na tradição política liberal.


Miguel Soares de Albergaria
Jornal Diário dos Açores Edição de 15 de Setembro de 2017

3 de setembro de 2017

Será que vamos no caminho certo...

Pode não se gostar de João Rendeiro, mas  isso não deve tolher a nossa mente e não deve condicionar a nossa leitura atenta do que aqui escreve sobre a Venezuela e a denominada Revolução Bolivariana.

2 de setembro de 2017

Coluna Liberal

O regresso das férias e consequentemente à realidade do dia-a-dia proporciona-nos alguns momentos de concentração, reflexão e até de ajuste da mente à realidade. Desta feita, como quase sempre nos Açores, o regresso coincide com um período pré-eleitoral “efervescente”.
Passado um breve espaço temporal de adaptação ao ritmo frenético da rentrée e tendo já começado os neurónios em carburação plena com o alto patrocínio das leituras estivais que estiveram a cargo de Garcia Marquez e José Milhazes, perpassam-nos enormes preocupações sobre a liberdade, as liberdades individuais e a liberdade de escolha durante os tempos que por aí vêm.
Ambos, Marquez e Milhazes, escreveram sobre a sua experiência na então denominada Europa de Leste (recomendo a leitura de Garcia Marquez), com um hiato de meio século sem que essa distância temporal tenha sido motivo de grande divergência de opiniões o que não deixa de ser estranhamente inquietante. Mais do que as intermináveis filas para a aquisição de alimentos e bens de primeira necessidade, inquieta-nos o regime musculado de partido único e pensamento único, sem sufrágio e sem escrutínio que foi imposto para lá da denominada “cortina de ferro” que o excelente autor sul-americano descobriu afinal tratar-se de uma simples barra de madeira pintada de branco com listas vermelhas.
Talvez por via da proximidade - assunto que retomarei adiante- as eleições para as autarquias locais são as que geram mais emoções e até alguma agressividade nos discursos dos candidatos. Apesar da lei eleitoral autárquica permitir candidaturas de propositura independente dos partidos políticos formalmente organizados, não deixa de ser intrigante que esses mesmos partidos apoiem movimentos que consubstanciam a ideia de uma espécie de Partido anti Partidos.
O caso mais paradigmático na nossa democracia doméstica é o movimento Santa Clara Vida Nova que recebe o apoio expresso de todos os Partidos Políticos.
 Os eleitos locais são, entre todos os que exercem funções na gestão da polis, os que mais próximos dos cidadãos estão. São por isso os que mais familiarizados estão com os seus anseios, preocupações e desideratos. São no entanto também os que, por via dessa mesmo proximidade, os mais escrutinados e que mais rapidamente podem ser condicionados nas suas funções pelas vontades e apetites pessoais deste ou daquele cidadão eleitor que tem mais ou menos influência nesta ou naquela Freguesias ou pequeno município. O Municipalismo, como modelo de gestão de proximidade da coisa pública, apesar das suas grandes virtudes, encerra enormes perigos como o da construção de um sistema clientelar e com laivos de caciquismo.

O caciquismo não é um exclusivo dos Partidos Políticos. No entanto, é a esses que se atribuem a maiores responsabilidades na construção desta sociedade clientelar e “agradecida” que vai alimentando uma “click” de carreiristas na gestão da coisa comum e que apelida de “mal-agradecidos” os que, tendo passado por lugares de decisão superiores possam ter alguma espécie de atividade cívica crítica do poder. Era só o que faltava.
A hora de depositar o voto na urna é a nossa hora de liberdade, o ato de riscar a cruz em cima do quadrado do boletim de voto é a nossa hora de escolha, votar é exercer escolhas livremente. Façamo-lo de forma consciente, livre e urbana, façamo-lo no pleno exercício dos nossos direitos de cidadania, esse é o exercício mais liberal que podemos identificar no contexto  da polis.
Em eleições autárquicas mais do que em qualquer outra eleição, por via das especificidades da lei eleitoral, como já referimos, o fim do monopólio de propositura dos partidos tradicionais é uma possibilidade. Porém, não é saudável para a vida democrática que os partidos formalmente constituídos  se substituam em partidos informais encapotados em movimentos de cidadãos, a bem da democracia e da liberdade é bom que se assegurem condições para a alternância e a alternativa. 
O unanimismo gerado à volta do Movimento Santa Clara Vida Nova, por exemplo, é um sinal preocupante para a nossa democracia, é um contra senso no regime e um perigoso ensaio para situações semelhantes. Ir ás urnas em Santa Clara do Concelho de Ponta Delgada no próximo dia 1 de Outubro não passará de um mero formalismo, a democracia não se compadece com este tipo de coisa. Não é compreensível que 40 anos depois da revolução que devolveu ao povo o poder de escolher não lhe seja dada alternativa nessa escolha. Quando a democracia está ameaçada então todas as demais liberdades estão sobe o cutelo do unanimismo da prepotência e da arrogância, mesmo que essas não existam.

Nuno Barata Almeida e Sousa

Jornal Diário dos Açores Edição de 1 de Setembro de 2017




1 de setembro de 2017

O blogue feito de outras leituras_ Nuno Ferreira Domimgues


A SATA está a “ferro e fogo” depois de uma opera- ção de Verão perfeitamente desastrosa. Depois de muitos anos de erros e desmandas internas a SATA cometeu, este Verão, o único erro que nenhuma empresa em mercado aberto pode cometer: o de desconsiderar os seus clientes ao submetê-los às consequências de uma operação mal preparada e mal dimensionada. A palavra passada de boca em boca, por todos os que foram afectados pelos atrasos e cancelamentos recorrentes, é a pior campanha de marketing que a empresa poderia ter. A SATA foi, em tempos, uma empresa de referência, regional e nacional, de boa gestão, de profissionalismo e de um enorme orgulho por todos quantos nela, ou com ela, trabalhavam. Em 2008, a empresa tinha uma posição consolidada nos mercados onde operava, uma saúde financeira invejável e uma enorme reserva de capitais, acumulada por uma gestão de sucesso, num mercado que já come- çava, no entanto, a dar os seus primeiros sinais de mudança, com o fim do monopólio da TAP nas ligações a Lisboa e ao Porto. A SATA tinha, nesses tempos, uma estratégia bem definida, um rumo bem traçado, e um objectivo claro, definidos pelo accionista, e implementado, de forma diligente e responsável, por um conselho de administração competente e conhecedor, à data, do negócio da aviação.
O actual estado de degradação, financeira, operacional, da qualidade de serviço, e da paz social, foi “construído” ao longo de muitos anos e foi fruto da total incapacidade de adaptação da companhia às mudan- ças impostas pela evolução nos mercados da aviação. A degradação começou pela delapidação das reservas financeiras, com gastos em eventos faraónicos, de retorno muito duvidoso, com aumentos desmesurados dos encargos com despesas de pessoal, mais de 30% em poucos anos, para evitar greves, patrocionadas por todos os sindicatos, em vésperas de períodos eleitorais, e com admissões de pessoal desnecessário, para “pagamento” de favores políticos. A aquisição e o leasing de aviões desadequados às operações da transportadora provocou o aumento anormal dos gastos de manutenção e operação, sem que do lado da receita se tivesse o contraponto financeiro. Os Dash Q400, adquiridos novos com recurso a um avultado empréstimo bancário, não são adequados para fazer a operação inter-ilhas no arquipélago, por serem aviões de última geração, feitos de ligas leves, especialmente afectadas pelos gases vulcânicos e pelo ambiente marítimo. Os seus motores, de alto rendimento e com ciclos de aceleração e aumento de temperatura acentuados à descolagem, estão sujeitos a desgastes muito elevados em voos curtos, inferiores a uma hora e meia, como aqueles que a SATA Air Açores efectua. O A330, recentemente fretado, é um avião, com custos de operação e consumos de combustível muito elevados, só se rentabiliza em voos de longo curso, de duração superior a 8 horas, com taxas de ocupação médias elevadas, acima dos 70%, e em operações não sazonais. A decisão por este avião serviu somente os interesses dos pilotos da frota dos A310, que adquiriram forma-ção num avião mais moderno, operado pela TAP e pelas principais transportadoras aéreas. A nomeação de administrações incapazes de desenharem e implementarem um plano estratégico para a empresa, que a prepare para vencer os desafios actuais nos mercados da aviação e a ausência de uma definição clara das linhas e orientações gerais do que se pretende para a SATA, demonstra a incapacidade do accionista, ao longo de todos estes anos, para cumprir o seu papel. A operação de Verão deste ano, em que mais de 40% dos voos para a América e Canadá foram contratados a empresas “charter”, e que escalou para o único A330 mais pilotos e co-pilotos que aqueles que dedicou à frota dos três A310, mostra o perfeito estado de desorientação dos administradores, dos directores, bem como, o total alheamento do accionista.
A SATA vai pagar, este ano, vários milhões pelo fretamento de aviões e respectivas tripulações, mantendo em casa os seus funcionários, pilotos e pessoal de cabina. É uma decisão que, quase duplicando os custos de operação, dificilmente se poderá entender. A empresa tem estado, há muitos anos, à deriva; as opções e decisões tomadas têm sido, na maior parte das vezes, de natureza conjuntural, nunca tendo havido a necessária coragem política para fazer a necessária reestruturação da SATA. Sendo certo que se terá que reestruturar profundamente a empresa, também é claro, em meu entender, que esta deverá ter um papel de regulador do mercado, devendo por isso, manter-se na esfera pública. Não é a entrada de capital privado, por si só, que trará a boa gestão, mas é esse mesmo capital privado que trará uma gestão desligada do “serviço público”, sendo que este é o que melhor salvaguarda os interesses dos Açores. A omissão do accionista e a sua demissão do controlo que lhe é devido, poderá ser evitada no futuro, pela criação de uma Estrutura de Missão, nomeada e tutelada pela Assembleia Legislativa Regional dos Açores, composta por uma equipa profissional e competente, com elementos dos diversos quadrantes políticos, que defina as linhas gerais estratégicas para a companhia, que nomeie o Conselho de Administração e acompanhe e vigie de perto os seus actos de gestão e os impactos dos mesmos na saúde financeira da empresa. Uma Estrutura de Missão como esta, dará a estabilidade necessária à equipa de gestão para reestruturar a empresa; as nomeações e indigitações dos membros da administração, bem como dos restantes directores da empresa, deixarão de servir para “premiar” carreiristas e oportunistas políticos.
A actual debilidade financeira da empresa e a incapacidade de gerar o capital circulante necessário para a sua vivência diária, obriga à venda de activos. A frota da Air Açores terá que ser alienada para que se diminuam os enormes encargos financeiros e para que se volte a ganhar a necessária credibilidade perante a banca, para se reestruturar a dívida do grupo; os “novos” aviões para a operação inter-ilhas deverão ser fretados, em contratos de longa duração. Os encargos com pessoal terão que se adaptar à realidade dos mercados e, mesmo que temporariamente, reflectir as dificuldades de tesouraria da empresa. Se se aligeirarem as condições e subsídios paralelos aos salários ainda inscritos nos Acordos de Empresa, negociados e acordados no passado, para realidades completamente distintas, conseguir-se-ão diminuições significativas, da ordem dos 5% do total dos encargos com pessoal, de cerca de EUR 3 milhões. Os sindicatos e os seus representados, têm que entender e aceitar que só pode distribuir riqueza quem a gera; e a SATA, que somente tem gerado ao longo dos últimos 5 anos, pesados resultados negativos, não tem riqueza para distribuir. Toda a estrutura de liderança do grupo terá que sofrer alterações profundas; o Grupo é constituído por empresas muito distintas e, por isso mesmo, a moldura da estrutura da direcção deverá também reflectir essa mesma diversidade. A um Conselho de Administração reduzido deverá reportar uma estrutura de directores gerais em cada uma das empresas ou centros de custo autónomos do Grupo: a SATA Air Açores, a Azores Airlines, a SATA Gestão de Aeródromos e o Centro de Formação de Santa Maria. Só assim se criarão as dinâmicas de gestão, operacional e comercial, que promovam o sucesso nos mercados em que cada empresa irá operar.
A SATA Air Açores, a operar ao abrigo do contrato de “serviço público” para o transporte inter-ilhas, deverá acomodar a estrutura de apoio às operações do grupo, contratualizando internamente os serviços prestados. Os custos operacionais deverão ser diminuídos em mais de EUR 8 milhões, com o re-dimensionamento das operações no Grupo Central, substituindo a lógica de ponto-a-ponto, por outra, bem mais económica, de encadeamento circular entre as ilhas Terceira, Graciosa, São Jorge, Pico e Faial. Fretando aviões de manutenção mais barata e mais adaptados à realidade açoriana, aliviando os custos com pessoal e re-dimensionando as operações, melhoram-se as contas e poder-se-ão, inclusivamente, praticar valores de ida-e-volta entre os EUR 60 e EUR 80, servindo melhor os açorianos e quebrando a sazonalidade do turismo de estrangeiros, ao promover o turismo interno nos meses de época-baixa.
A Azores Airlines deverá devolver o A330 ou, na impossibilidade de poder fazê-lo, deverá afectá-lo a uma operação de afretamento a outras companhias. Os voos deverão ser garantidos pelos A310, até outros aviões, mais adaptados às rotas e à sazonalidade da operação dos voos de médio e longo curso, estarem disponíveis no mercado e em quantidade suficiente para uma substituição integral da frota. Comercialmente, a empresa deverá continuar a apostar na diáspora nos Estados Unidos da América e no Canadá e, em simultâneo, expandir a promoção do Destino Açores aos americanos e canadianos amantes do turismo de aventura e natureza; os Estados Unidos e o Canadá são os principais mercados emissores de turistas para este tipo de destinos, mais de 40% de todo o volume mundial. Na operação Açores-Continente, os A320 deverão ser posicionados principalmente nas rotas não liberalizadas, Horta, Pico e Santa Maria, pois são estas as que conferem a protecção contra as guerras comerciais com as Low Cost; em Ponta Delgada e na Terceira, os A320 deverão ser agentes reguladores do mercado, não permitindo aumentos desmesurados das tarifas e garantindo as frequências necessárias a uma boa qualidade de serviço.
A actual estrutura de custos da SATA, não permite encarar de forma positiva, a livre concorrência com as Low Cost. Quando a empresa decidiu entrar numa guerra dessas no Funchal, aquando da liberalização das ligações aéreas para o arquipélago da Madeira, perdeu muitos milhões de euros e foi obrigada a abandonar uma operação consolidada há muito anos. A SATA Gestão de Aeródromos deverá expandir os seus serviços para outros mercados, com aeroportos semelhantes àqueles que opera nos Açores, fornecendo serviços de engenharia ou mesmo, contratualizando concessões de gestão e operações de handling.
A enorme experiência dos quadros da empresa e os elevados níveis de qualidade praticados nos aeroportos dos Açores, capacitam a empresa para vencer em novos mercados.
O Centro de Formação de Santa Maria deverá expandir as suas sessões de treino e formação a alunos externos, numa altura em que se sabe que o mercado mundial está em franca expansão, pois vai necessitar de formar milhares de tripulações nos próximos 30 anos; só para pilotos, os diversos analistas mundiais do sector apontam para a necessidade de formar mais de 600 mil novos profissionais.
Por tudo o exposto acima, acredito que a solução não passa pela entrada de capital privado, ou pelo despedimento em massa de quadros; essa é a receita, de efeito duvidoso, daqueles a quem faltam ideias e verdadeiras soluções. O Quadro de Pessoal da SATA é muito especializado, levou muitos e muitos anos a formar, e será, todo ele, necessário para implementar uma estratégia de sucesso e executar a necessária reestruturação do grupo.
A SATA pode voltar a ser uma empresa de referência de aviação nos Açores e em Portugal. Para tal, é necessário que o actual accionista tome as necessárias medidas para a reestruturar profundamente. Deverá fazê-lo quanto antes, pois o mercado e os concorrentes não esperam e a situação da empresa degrada-se cada vez mais, a cada dia que passa. Não é com reuniões “Tupperware”, que mais não vão trazer do que aquilo que todos já sabem há muito e muito tempo, que serão encontradas as soluções. É com acções sérias e concretas, promovidas e implementadas pelo accionista, que a SATA poderá voltar a ser uma empresa de sucesso.

*Ex-Director Regional dos Transportes Aéreos e Marítimo

Jornal Diário dos Açores Edição de 29 de Agosto de 2017
Jornal Diário Insular Edição de 1 de Setembro de 2017

21 de agosto de 2017

O blogue feito de leituras avulsas.

"(...)Não há nada que assuste mais as pessoas do que a criatividade, nada que apavore mais que a diferença. A sociedade necessita de medíocres que não ponham em questão os princípios fundamentais(...)"

António Lobo Antunes
Visão 2017.07.20

Coluna LIberal


A primeira diferença que as low cost fizeram foi a de aumentar a liberdade de muita gente. Pois aumentou o leque de escolhas de ações que temos o poder de levar por diante.
Assim, do lado de cá, já não é apenas a classe média alta que pode ir passar uma semana a Londres (depois de se juntar dinheiro para o alojamento), ou dar um pulo ao Dragão para ver um jogo do FCP.
Do lado de lá, para uma família lisboeta que planeie a viagem com antecedência, vir passar uns dias a S. Miguel já não custa o triplo de os ir passar à capital inglesa.
O que permite, de novo do lado de cá, a muitos jovens a escolha de não emigrarem para Inglaterra. E a bastantes dos respetivos pais a escolha de voltarem a trabalhar, depois da suspensão das grandes obras públicas e habitacionais, e do encerramento de tantas representações comerciais.
Aqueles de nós que assumimos a liberdade como primeiro valor político sempre discordámos assim da sucessão de governos regionais e da república, ora do PS ora do PSD, que durante décadas mantiveram um monopólio dos transportes aéreos entre os Açores e o exterior. Primeiro, da TAP, depois, concertado entre essa companhia e a SATA. Pois era óbvio que essa liberalização contribuiria para o aumento da liberdade de muitos… obstaculizando apenas os interesses privados dos membros de algumas corporações – mas estes interesses causam urticária a todos quantos defendemos o Estado de Direito.
Falta a discussão da liberalização do espaço aéreo inter-ilhas.
Mas, enquanto essa discussão não avança, é bom que não nos descuidemos de uma outra. E a começar já na campanha eleitoral autárquica que se avizinha.
Das atuais liberdades micaelenses acima apontadas, a primeira é em parte sustentada pela terceira; e esta é sustentada pela decisão dos turistas continentais e estrangeiros de precisamente optarem pelos Açores – se deixarem de vir, pode bem voltar o desemprego e a emigração locais, encurtando o leque das ações que podemos levar por diante.
Ou seja, para mantermos aquelas liberdades é preciso, de um lado, que continue a liberalização do espaço aéreo, e, do outro, que os visitantes satisfaçam os objetivos que os trouxeram a estas ilhas.
Se porém na Vista do Rei houver sempre tanta gente que só alguns consigam chegar à berma, para os restantes deixa de ser “vista” do que quer que seja. Se tomar banho na Poça da Beija só ao colo uns dos outros, servirá apenas quem procurar mais calor humano que o da água. Se os trilhos forem para se fazer em filas contínuas, ficará mais em conta ir subir e descer escadas no centro comercial mais próximo.
Mas talvez pior: não adianta aumentar aos açorianos a liberdade de passarem 2 semanas noutro sítio, se nas restantes 54 semanas do ano se lhes reduzir a liberdade de viverem numa terra que sintam como sua. Como acontece quando a procura turística inflaciona o custo das casas nos centros das cidades, ao ponto de daí expulsarem os habitantes locais para periferias (“gentrificação”), de onde virão, aos turnos, servir os novos senhores dessa terra.

9 de agosto de 2017

40 anos a empobrecer.

Nós tínhamos um banco micaelense que se transformou em Açoriano e foi-se;
Nós tínhamos uma companhia de Seguros micaelense que se transformou em Açoriana e foi-se;
Nós tínhamos uma SATA micaelense que se transformou em Açoriana e foi-se; (ainda não deram por isso?)
Nós tínhamos um Porto de Ponta Delgada que se transformou em Açoriano e corre o risco de se ir.


No caso endémico, a união desfez a força. 

“Todos os regimes Comunistas acabaram em fome"

6 de agosto de 2017

Coluna LIberal


Nestes dias de Agosto em que uns vão de férias e outros nem por isso, dias em que, no plano da gestão da polis,  se passa pouco coisa  ou coisa nenhuma tenho me perdido em cogitações sobre a campanha eleitoral que se avizinha e o respetivo ato de escolha dos novos e velhos autarcas por estas nossas Ilhas.

Nesta pré-campanha, pelo menos até agora, só se ouve ruido, ruido nos ataques e anúncios estéreis mas estridentes, ruido dos festivais e festas e festarolas de apropriações pouco claras e idóneas de festejos populares, a chamada silly season (prefiro chama-la de estação tontinha) quando conjugada com eleições autárquicas, transforma os Açores em particular e Portugal no geral num autêntico pagode.

Os autarcas concorrem uns com os outros a ver quem conquista os melhores músicos (que nem sempre são de facto os melhores mas o que captam mais votos) pagando e promovendo festas e festivais a cada dois dias que passam. Pagam os contribuintes, os mesmo que fruem, é verdade, mas também os mesmos que durante o resto do ano reclamam das más condições das ruas, das faltas de água, dos esgotos, da recolha dos RSUs, enfim, os mesmos que reclamam de coisas realmente importantes não se importam que se gaste o dinheiro deles em coisas de importância relativa e necessidade duvidosa. Panem et circenses. Sendo que o pão é pouco e o circo de fraca qualidade.

Os artistas, esses, esfregam as mãos de contentes, num mercado altamente competitivo, com uma oferta muito maior do que a procura, e com qualidade mais do que comprovadamente má, não há nada melhor do que um ano de eleições para equilibrar as finanças. É só mais uma atividade artístico/económica sustentada pela máquina registadora do Ministério das Finanças.

O povo, esse, clama por mais liberdade, vilipendia os seus detratores mas amarra-se definitivamente hipotecando o seu futuro e o das gerações vindouras a troco de pequenos momentos de alienação. Pão e circo é melhor que liberdade, é assim desde a Antiga Roma.

Há, no entanto, uma maioria silenciosa que condena estas práticas e que vai votar, no dia da verdade, espécie de juízo final para os políticos carreiristas, vai ciente de que andou a pagar a campanha eleitoral de alguns dos seus autarcas. Essa maioria silenciosa vota conscientemente, vota sabendo que a escolha dos mesmos só pode redundar em resultados idênticos. O espaço confinado entre biombos e a distância entre a caneta e o boletim de voto são o nosso lugar de liberdade.

Faltam pouco menos de  dois meses para irmos a votos mas parece que, para alguns dos autarcas, estamos em campanha há já mais de um ano, para outros a vida é uma campanha eleitoral.

Autarcas e membros do governo deitam mão da coisa pública para usaram como meio de propaganda que é como dizer em benefício próprio. Pode-se questionar a licitude de atos como publicar um Boletim Municipal a um mês das eleições com divulgação de suposta obra feita; pode questionar-se da legalidade de promover uma viagem com idosos pelos Açores a fora; pode questionar-se da licitude de promover festas e festarolas populares gastando o erário publico em “violas e Brasileiras” em lugar de o gastar na recolha do lixo ou no saneamento básico.

É nesta época de eleições que todos os políticos se poem de acordo quanto às leis do mercado e ás suas virtudes. Na verdade, o mercado (eleitores) pede música e eles dão-lhes música. É o mercado eleitoral que regula a oferta do potencial eleito.

 Pode-se questionar sobre a lei e a norma e, certamente, vamos concluir que essa gente nada faz de ilegal. Já se os critérios da nossa avaliação forem do domínio da ética as coisas são bem diferentes, nem tudo o que é legal é eticamente certo e nem tudo o que está certo é totalmente legal.

Tenham todos umas ótimas férias, em liberdade.

In Diário dos Açores edição de 5 de Agosto de 2017

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